Capa caderno MIX
20 ANOS do ponto de Cinema
Reportagem que foi publicada no Jornal
Diário de Santa Maria na edição
Sábado/domingo 19/20 de março de 2011
no caderno MIX
(melhor visualizado em 1024 x 768)
REPORTAGEM
Quem acompanha o cenário noturno sabe que são poucas as casas que seguem funcionando por décadas. Em Santa Maria,
um exemplo de longevidade é o Ponto de Cinema, que faz 20 anos neste mês. Pela tradição que construiu ao longo desse
tempo, o local já se transformou em uma referência de Santa Maria. O segredo do Ponto é desafiador para qualquer casa:
atendimento personalizado, fidelização do cliente e esforço para manter uma proposta e um conceito em pé, mesmo diante
das mudanças de modas, tendências e estilos.
Santa Maria, 10 de março de 2011, 18h15min. A placa na porta do bar diz “fechado”. As janelas estão cerradas, mas
a porta de vidro deixa que os transeuntes percebam a movimentação de pessoas. Funcionários movem escadas, ajeitam
mesas e a proprietária instala balões e determina a compra de pães e outros itens para servir à noite. Ainda assim, não faltam
fregueses batendo a porta:
– Já
voltaram? Que bom!
Após três semanas de férias, um dos mais
populares bares da cidade se prepara para reabrir, e seus clientes
fiéis mal podem
esperar para pedir sua mesa, sua bebida e seu petisco. Quem chega é recebido com carinho pelo casal de proprietários,
Lourdes e Miguel Cortez.
Ele abre um sorriso, por detrás do balcão. Ela vai à porta. Fala da correria, da arrumação, diz que abrem mais tarde. O cliente
sai. E promete voltar.
O
retorno de clientes é o principal capital do Ponto de Cinema, que
completou 20 anos no dia 2 de março. O aniversário é um
feito: são raros os bares do Centro de Santa Maria a se manterem por tanto tempo com os mesmos donos. Na Rua Ângelo
Uglione e cercanias – que já foram mais boêmias, é verdade –, dezenas de casas noturnas nasceram e pereceram, sob o
testemunho do bar cujo nome se refere a
um cinema que também já não existe.
Lourdes, 47 anos, diz
que o segredo do sucesso é simples: atender bem.
– A gente
tem de saber que as pessoas estão aqui buscando entretenimento. E
não é porque você está de mau humor, brigou
com o marido,
que vai
atender mal – diz.
A professora de filosofia Liliana de
Oliveira, 33 anos, é um exemplo de cliente que associa o Ponto de
Cinema à alegria. A ponto
de dizer ao marido que, se morresse,
queria que suas cinzas fossem deixadas lá.
– Quando a gente
está feliz, vai ao Ponto, quando está triste, vai lá conversar com
um amigo. Passei vários aniversários lá. O
Ponto faz parte da
minha vida – afirma.
Política
de camaradagem vigora desde 1991
Liliana
destaca como pontos positivos do bar a cerveja sempre gelada e a
atenção ao cliente. O clima de camaradagem entre
fregueses e donos faz a fama do bar desde sua inauguração, em 1991, quando tinha a metade da área que tem hoje. De lá para
cá, são poucas as histórias de gente que saiu “de mal” – apesar de Lourdinha, como é chamada, dizer que não se furta em se
indispor com algum “mala”, se necessário.
Mas a política da casa é que, seja rico ou seja pobre, todo mundo é igual e tem direito a mesa e gentileza. Para sentar, é melhor
chegar cedo. Ou, então, esperar para ver Lourdinha criando espaço para uma mesa onde parecia não caber duas cadeiras.
A presteza dos funcionários, que parecem antecipar
os pedidos dos fregueses, também é famosa. Mas Lourdes garante que
não treina ninguém:
– Só pergunto: como você gostaria de
ser tratado? Não custa tratar bem.
Para marcar o aniversário
do bar, que já faz parte da história da noite local, a revista MIX
conversou com os donos e pessoas
apaixonadas pelo Ponto de Cinema atrás de histórias. Nas próximas páginas, você “saboreia” um filé do professor – prato
tradicional do bar – com sabor de
nostalgia.
tatiana.dutra@diariosm.com.br
TATIANA PY DUTRA
Não estava nos planos de Miguel e Lourdes investir num bar no Centro, naquele início dos anos 90. Ele era corretor de imóveis.
E ela, pedagoga, dividia-se entre a clínica da Escola Antônio Francisco Lisbôa e a secretaria do Cine Glória. Até que uma
intervenção estadual abalou as estruturas do cinema. O local foi vendido para duas pessoas diferentes, e o gerente, chefe de
Lourdes, acabou demitido. Ocorre que ele era dono de uma lancheria que funcionava onde hoje é o Ponto e, com a demissão,
decidiu se desfazer do
negócio, oferecendo-o a Lourdes.
– Não tínhamos dinheiro.
A gente procurou sócios até não acabar mais. Até que a gente
falou com um casal de amigos de
Cacequi, que aceitou – lembra
Lourdes.
Foi assim que o antigo “Ponto de Cinema –
Famintos e Sedentos” (era assim que a lancheria se chamava) passou
para as
mãos dos atuais donos, que, com o tempo, desfizeram a sociedade e, este ano, compraram o prédio que abriga o bar. No
início, o local funcionava das 11h às 18h, com lanches e almoço. Foi nesses primórdios que surgiu uma tradição no bar que se
mantém até hoje: não funcionar aos sábados. Mas Lourdes avisa que a família não é sabatista ou adventista (religião que faz
celebrações especiais no sétimo dia). Quem decidiu isso foi o
comércio da época.
– Em 1991, o comércio de Santa Maria
não abria aos sábados à tarde. Não tinha quase ninguém no Centro
e não ia muita gente
no cinema. Não havia movimento na lancheria. Como os maridos exigiam um dia de descanso, decidimos que seria no sábado
– conta.
O dia de folga se manteve meses depois, quando os donos mudaram a proposta do bar de lanchonete para happy hour, abrindo
das 14h às 20h30min.
– Era época do Panaceia
e do Belos e Malditos (casas noturnas que funcionavam na Ângelo
Uglione). O pessoal vinha e depois
ia nas boates. Na verdade, a gente começou com amigos frequentando. Não foi aquele negócio de “abriu e estourou” – diz
Lourdes.
Não demorou muito, o bar tinha
fila na porta, e a rotina da família se estabelecia de forma
diferente. As manhãs, antes
dedicadas ao trabalho, ficaram voltadas
ao sono.
– Nossa rotina é uma loucura. O almoço é às 14h
– conta Ana, 23 anos, filha do casal.
Estudante de
Administração, Ana dá expediente no bar três vezes por semana. O
envolvimento da jovem faz paralelo com a
renovação do público do
bar.
– Hoje, filhos de nossos primeiros clientes vêm aqui –
comenta Miguel.
Ainda assim, volta e meia Lourdes cobra o
retorno de veteranos sumidos. De todos, ouve sempre mensagens de
carinho:
– Perguntei a um casal que vinha no início por que
eles não apareciam, e eles disseram: “Lourdinha, graças a Deus, a
gente
passou ali no
Ponto e estava cheio. Mas se a coisa ficar preta, não te preocupa. A gente volta.”

Noite é sinônimo de curtição e pegação, certo? Bem, mais ou menos. Se uma família se propõe a se divertir unida, por que
não num barzinho?
E o Ponto sempre foi a opção da professora aposentada Beth Souza, 66 anos, e do marido, o dentista Eduardo, 69. Desde
os
primórdios do bar, eles iam com os três filhos – e também com os
netos, aproveitar o lugar em boa companhia.
– E ainda vamos.
Tomamos uma cerveja ou um vinho, comemos alguma coisa. O Ponto é
para todas as tribos, dos mais
velhos e dos mais moços – diz
ela.
O bar traz boas lembranças a Beth, e ela leva faz parte
de sua história: um dos pratos do cardápio leva o seu nome.
–
No início do bar, não servíamos salada, e como ela vinha com
filhos e netos, pedia que fizéssemos – lembra Lourdinha.
Para
quem ficou curioso: a Salada da Beth é uma mistura de folhas de
alface, maçã, atum, queijo ralado, que, conforme a
inventora, deve ser regada com azeite de oliva e vinagre balsâmico

Várias carreiras musicais nasceram ou se solidificaram dentro do Ponto de Cinema. Entre elas, a de um artista que é quase
símbolo da casa: Renato Mirailh. Ele foi o primeiro a animar as happy hours do local com seus clássicos da MPB e sambas,
há 16 anos. E sempre às
segundas-feiras.
– Era um dia de pouco movimento, e a gente
tinha até pensado em parar de abrir nas segundas. Aí, ele se
ofereceu para
tocar, fazer um violão e voz – lembra Lourdes.
E
lá se foram 782 segundas-feiras de casa lotada para Mirailh, que tem
um público fiel e de todas as idades, assim como o
próprio bar.
Entre os fãs, a professora Liliana, citada no início da
reportagem.
– A voz dele é maravilhosa, e o repertório é
muito bom. Dá vontade de ouvir a noite inteira – elogia a
professora.
Para Mirailh, sua trajetória no ponto é uma
parceria de sucesso e gratidão.
– Sou grato. O Ponto me
proporcionou um lugar em que posso estar sempre, onde quem quer me
ouvir pode me encontrar –
diz o músico.

O professor e cartunista Mario Lúcio Bonotto Rodrigues, o Máucio, pisou no Ponto quando ele ainda tentava se firmar no
cenário noturno da cidade. Era 1992, e a moda dos happy hours recém chegava por essas bandas, bem como Máucio,
que voltava de uma temporada na
Capital.
No bar, que ele fez novas amizades, reencontrou
velhos parceiros e, entre uma ceva e um petisco, fez do Ponto um
espaço cultural. Nos anos 90, o ponto foi local das festas de lançamento da revista de humor Garganta do Diabo, produzida
pelo Grupo de Risco, do qual faz parte. Também foi o Máucio quem convenceu frequentadores a produzir crônicas e
poesias para compor livros. A iniciativa foi um sucesso. Ponto de Cinema – Crônicas e Poesias de Bar teve duas edições:
uma em 1999 e outra em 2001, e
foram as mais vendidas das Feiras do Livro em seus respectivos
anos.
– Sempre tive a ideia de que o Ponto de Cinema é um
bar cultural e de amigos. Teve uma época que os fregueses que
levavam jornais e livros para o bar. Foi daí que tive a ideia que
escrevessem – conta.
Até de bobeira Máucio levou arte ao
Ponto. Caricaturas que fez de clientes, em guardanapos, formaram a
exposição
Inventos. Mas das recordações que guarda de lá, uma
das mais pitorescas é a da pintura de uma janela na parede do
bar:
– A Lourdes queria abrir uma janela. Falou para todo
mundo, mas nunca abria. Um dia falei: vou é desenhar uma janela
aqui. O pessoal deu força. Fomos em casa, peguei guache e uns pincéis e começamos. Depois, passamos o pincel para
as pessoas deixarem mensagens.
Virou uma espécie de quadro coletivo.
Hoje,
Máucio não frequenta o Ponto com a assiduidade de antigamente, mas
afirma que a “mágica” que mantém a casa
cheia 20 anos é a
mesma:
– A Lourdes tem um jeito de fazer a gente se sentir
especial. Ela é a alma daquele lugar.

A música ao vivo inicia as 21h30min.
Pode ser consultada também pelo telefone 3221-8800,
pelo Diário de Santa Maria ou pelo jornal A Razão.
Lembramos que o PONTO DE CINEMA abre diariamente ás 18h,
somente aos domingos e feriados abre ás 19h 30min.
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